Fragmento

terça-feira, 6. janeiro 2015 11:38 | Autor:

Carne que te fiz da sina
Da sina de multiplicar
Reduzi-te ao que és: menina
Mera boneca de brincar

Do barro moldei-te pristina
Em róseo vaso a depositar
Minha argila tênue cristalina
Foi-se aos dias a se assomar

Num momento de pura mímica
Plasmei-te com algo mais que sorte
Sortilegei-te algo lúdica

Encontrei-te assaz forte
Carne que te fiz da sina
Sinada de vencer a morte

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A última folha do Outono

terça-feira, 24. maio 2011 17:27 | Autor:

A última folha do Outono
Sente o vento querendo arrancar-lhe.
Ela sabe, embora não tenha carne,
Que até sua árvore lhe entregou ao abandono.

A última folha de Outono
Não quer morrer.
Cortar o cordão umbilical do galho
E se jogar ao chão onde a sujeira e não o orvalho

Irá lhe acariciar.

A carícia do bem é um sonho humano para a pequena folha.
Seca não vê que a luciférica escolha
Arrasta toda a criação
À putrefação da sabedoria.

A morte e suas facetas,
A dor e os seus adornos,
A sujeira do chão e os seus contrastes
Se miscigenam com o ar
E se insinuam no arfar
Do vento cansado.

A morte que rouba a vitalidade de todas as coisas
Está no ar, nas águas
E há de levar todas as formas ao seu descanso derradeiro

Na sujeira!

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Se tivesse que te dizer algo

sexta-feira, 20. maio 2011 14:54 | Autor:

Se tivesse que te dizer algo
Diria que não gosto de você.

Não gosto do seu cheiro
Do seu hálito
Do seu riso fácil
Da sua anca indócil.

Fatalizado pela máxima bíblica:
“O que devo fazer não faço
Mas o que não devo faço constantemente”

Te como todos os dias alegremente.

Mas há o postulado que me conforta,
Lá no Novo Testamento que exorta,
Que mal nos faz o que sai da boca
Jamais o que entra na supradita cloaca,

Por isso nem todo o caldo de sua vagina
Há de enviar minha alma incorruptível ao Hades
Que segue preceitos sacros como sina
Por exagerar na exploração de todos os seus lugares.

Categoria: Certas mulheres | Comentar (0) | 1.121 visualizações

A importância medida na carne

quarta-feira, 30. março 2011 10:14 | Autor:

A importância medida na carne
Não pode ser esquecida na dor que arde
O álcool atirado sobre a ferida exposta
Fará toda lembrança viva e a mostra
E esterilizada a chaga uma vez adquirida
Revelará dor maior que a chaga antiga
Essa chaga feita nas nuas costas
Pelo látego das vãs frívolas apostas
De amar-se dilacerado no fogo que arde
Trinchando-se na importância da carne

Categoria: Dor | Comentar (0) | 791 visualizações

Gentil dama que me escreve

quarta-feira, 15. dezembro 2010 10:11 | Autor:

Gentil dama que me escreve,
Veja só o que está fazendo:
Desperdiçando lábia a quem se atreve
Cuspir versos ao bravio vento.

Nem de um só instante
Ficou longe de ti meu pensamento,
Mas a insistência me é irritante
E a repetição mero tormento.

Por isso não se entregue
A esperança desse tíbio momento.
O momento (isso é certo) fenece
E vai lhe desamparar qualquer contentamento.

Faça uma prece! Ore! Cante!
Mas a ouvidos outros envie seu sibilo!
Minha alma dorme, não se espante,
No mais profundo sigilo.

Por isso palavras não me sangram,
Nem me sangram seus berilos,
Verdes olhos que não amam,
Só a tortura lhes serve de colírio.

Entrego-lhe somente esta mão
Onde o estigma se figura:
Pregos, tachas, tição,
Já lhe atravessaram a carne dura.

Crucifixo que sou abro os braços
Abarcando toda a estrutura
Desse tórrido planeta de embaraços
Abençôo a toda criatura

Que se ergue aos meus olhos e ri!
Ri como ri o corcunda da basílica!
Enfeiado de si mesmo e balindo o vi
Badalando sinos! Entoando mímicas!

Mas, quanto a ti, cessa!
Cessa toda e qualquer palavra!
A palavra me irrita, não se meça
Naquela que é a mais infértil lavra.

Dê a minha alma algo
Que lhe brote do próprio ventre!
Dê-me do seu âmago o fogo!
Só assim há de me ver contente.

Dê-me um único motivo
Que não possa ser dito!
Um único peso novo
Que não possa ser erguido!

Dê-me da sua carne o portento!
Dê-me do seu útero o sono.
Da lembrança o esquecimento.
Do seu colo o abandono.

Dê-me algo novo:
Novo como eram novas todas as coisas no frontispício da criação.
Novo como eram novas todas as noivas do paradisíaco Adão.

Dê-me algo que não tenha nome!
Nem signo!
Nem forma!
Nem imagem!

Nem dono!
Nem norma!
Nem margem!

Limite, estatura, métrica, aparência,
Embuste, candura, réplica, decência!

Dê-me você!
Mas a você que se perde de si mesma!
Dê-me você!
Mas a você que deconhece e se pasma!

Dê-me… ah…! Dê-me!

Ah…! Gentil dama que me escreve
Tardiamente capturei o teu intento!
Perdi levado pelo desejo que me impele
A tentar nomear o derradeiro portento!

Gentil dama que me escreve
Veja só o que está fazendo…
Fomentando em mim a palavra que deve
Fenecer já! Agora! Neste momento!

Categoria: Versos Íntimos | Comentar (0) | 771 visualizações

Quando tudo temos

segunda-feira, 6. dezembro 2010 10:00 | Autor:

Quando tudo temos
(Ou pelo menos coisas as quais apetecemos)
Sorrimos às luzes do meio dia
Dando feliz cantar ao sol.

Nesse tempo negamos a marca que nos fere a destra
E deixamos que, funesta,
A felicidade nos corrompa a harmonia
De nossa negra alma presa ao seu negro anzol.

Por tanto, de Lúciferes enraivecidos,
Passamos à ternos deuses esmaecidos
Na ânsia da orgia
E na beleza do atol.

Mas de quantas monotonias
Forja seu dia à dia
Ó Cíclope acorrentado à forja?

Tão voraz é a corja
Que se olhas esquerdo
Já se incita na mente o medo?

Ou a corrente é por demais bela
Que não vale a quirela
De ser maldito?

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O cancro na estrada

quinta-feira, 2. dezembro 2010 9:42 | Autor:

Eu sou um demônio antigo
Cuja idade não se conta
Com os dedos da mão.

Eu sou um alento perdido
Nos esgares da tosse
Provocada pelo toque da tua mão.

Ah! Desse deus louco quero distância!
Ainda que, minha vigilância,
Falhe à noite
E caia nas desgraças.

E que desgraças
São essas tão poucas
Que roucas, ou loucas, ou noutras,
Se levantam levantando dúvidas
E nos arrastam impúdicas
Pelas linhas de tua mão?

E se mão fosse parâmetro do destino
Que desatino não pode cometer a mente humana
Que cigana das formas vagueia por entre os menestréis do sonho?

Vagueia no enfado das estradas
E espia em paredes esburacadas à busca de corpos nus.

Tanto pus, meu deus, tanto pus!
E que juz
Faz essa ferida,
Esse cancro no nada,
À estrada na qual foi depositada?

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Antes da tarde

quarta-feira, 4. agosto 2010 10:08 | Autor:

Antes da tarde
A noite versejava
Buscando o teor da rima correta
Que vagueava pelas paragens do dia.

Tardia veio com seu manto
A sentar-se por sobre montes e verdes campinas
A divagar sobre sinas eternais.

Nesse dia, Tarde, que maior,
Estendeu-se às paragens do relento
E sem tempo
Viu-se indignada com a preguiça da irmã:

- Afã – disse – é uma coisa boa,
Desde que vida não se entenda com seriedade,
Mas, à toa.

- Boa – argumentou – é a leoa
Que espera o parto
Caçando o veneno dos insetos
Que perpétuos
Andarão nas garras dos seus filhos.

A noite, com a pena à mão,
Estendeu seu manto
E com o pranto
Depositou na terra
A rima tardia,
Que arredia,
Encerra o mistério do sol.

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Amor à Sombra da Noite

quarta-feira, 26. maio 2010 10:13 | Autor:

Um sorriso é tão somente um sorriso
E se a ti parecer mais,
Ó Sombra da Noite,
Vem e beija-me!

Respiro-te.
Sinto-te.
Provoco-te prazer.

E se de ausência ou proximidade
A minha presença carecer,
Ama-me!

Pois só nos extremos insensíveis
Ao toque, ao olhar tão humanos,
É que nos tornamos menos perecíveis,
Mais próximos de etéreos planos!

Na sombra forjei-me.
Na sombra cresci.
Na sombra vivi.

E se agora a tua imaculada negritude
Me parece, talvez, como alheia
À minha insana inquietude,

É que a velhice provocou
Cegueiras na mente
E o coração profundo sono tocou!

Por isso, toca-me e sente
As névoas por entre as minhas ideias.
As luzes por entre as minhas concepções.

Toca-me e ama-me, ó Sombra da Noite.
Une os nossos corações.

Categoria: Noite | Comentários (1) | 1.018 visualizações

No sonho daqueles que nos perderam

quarta-feira, 5. maio 2010 16:02 | Autor:

No sonho daqueles que nos perderam
Somos a nódoa da sombra
Que embranquece a luz.
E inerentes à coloração dos mortos nos fizeram,
Perdidos sob a relva,
À sustentar uma cruz.

E nos deram motivos para chorar à noite.
E nos deram lembranças e carinhos de açoite.
E nos fizeram voltar ao chão.

E singramos como os vermes
As paragens do húmus
Enquanto a mente estéril concerne
Os erros que ergueram nossos túmulos.

E as lembranças de quando éramos vivos
Nos escorrem da boca feito néctar sangüíneo.
Cavando túneis onde não chega o som dos sinos
O lembrar se transforma num caminho retilíneo.

E do transformar da sombra em sombra
É que se ergue a nossa mágoa.
Pois em pensamentos dividimos águas
Mas em toda fútil fúria nossa alma se assoma.

Pois ninguém nos rasga a carne na cama.
Pois ninguém nos compra a alma de lama.
Ninguém nos chama. Ninguém nos ensina.
Ninguém nos faz chorar.

Categoria: Dor | Comentar (0) | 844 visualizações

Sou o último herdeiro

quarta-feira, 24. março 2010 8:00 | Autor:

Sou o último herdeiro
De herança que ninguém quer
E é por isso que um filho meu
Jamais conceberá nenhuma mulher.

Levo nos ossos a desdita
Do vicioso círculo do samsara
Essa roda cruel e maldita
Que esmaga corpos e jamais pára.

Levo nos ossos a desdita
Do vicioso círculo do samsara
Tem piedade, meu deus, e livra
Teus filhos dessa corrente que nos é cara.

Se tivesse a opção
Que escolheria?
Da liberdade a benção
De não repetir-me mais um único dia.

Dorme entre os lençóis da Eternidade
Ó criança concebida longe daqui
Nunca acorde para a realidade
Desprovida da lança que te pedi.

Pois se acordares e me incitares para a guerra
Desarmado com certeza vou cair.
Pois se abrires a caixa que o lamento da minh’alma encerra
Nunca, nunca mais vais conseguir dormir.

Categoria: Dor | Comentar (0) | 863 visualizações

No Inferno

terça-feira, 29. dezembro 2009 9:19 | Autor:

Douro-me brandamente deste céu
Que do vermelho agora se tingiu.
Cingiu-me a seu contento e me despiu
De forma, de alento, força e broquel!

Como desci ao absoluto fel?
Imergi-me neste avérnico rio
Que, Narciso de mim, me seduziu?
Assim parti deixando-me ao léu.

A forma já não é nada. Ela parte.
O alento já não me vem. Ele vai.
A alma já não responde. Ela arde

No abismo de sentimentos e culpas!
Onde irei habitar, eu que sem pai
Perdi-me no fragor de tantas lutas?

Categoria: Soneto | Comentar (0) | 828 visualizações

Do teu dia tomarei apenas esta pequena noite

quarta-feira, 9. dezembro 2009 9:00 | Autor:

Do teu dia tomarei apenas esta pequena noite,
Ó doce amada,
E no seu ocaso,
A madrugada,

Derramarei esses floridos versos de purpúrea forma.

É sábio dizer que não há norma
Que faça com que o coração indômito
Adormeça enleado de estranhos sabores.

O rigor, a dureza, o cáustico manar da palavra,
Perseguem a sua alma e a acorrentam à estrada

Da contusão.

Por isso o teu sorriso nunca me será caro o bastante
E sempre na cama me voltarei para o outro lado
Buscando inutilmente algo que estanque
O sangue da ferida feita no meu costado.

A chaga, a crueza, o duro manar dos dias,
Rígidos como rochas,
Austeros como canyons,
Enviam para adiante a minha existência

Empedrada pelos pedaços de madrugadas
Que como esta roubo de mim mesmo e entrego

Ao vazio.

Categoria: Suave coisa, suave coisa nenhuma | Comentar (0) | 817 visualizações

O baixar da fronte diante do mar (O possuir do horizonte ao se contemplar)

quarta-feira, 2. dezembro 2009 8:48 | Autor:

Mares observo da praia
E ao longe vai o pensamento fortuito
Levado pelas ondas marinhas com o intuito
De seguir o meu querer que diz: “Se esvaia.”

As distâncias que separam
Do longínquo horizonte
Agora não me amparam
E baixo a cerviz, baixo a fronte.

O contemplar do mundo distante,
Bem para lá, esquecido e ocultado,
Forja o sentir do nada causticante
Eternamente por nós arquitetado.

Viaja para o longe…
Que procura olhar meu que sente
As agruras do lacrimejar?

Seriam esculturas a se contemplar?
Seriam pinturas para se apagar?
Seriam loucuras para se delirar?

Ou simplesmente pôr-do-sol
Para o qual se fica a divagar?
Ou puramente amor no atol
Esquecido pelas rocas que o destino antes ficava a usar?

Ah Parcas. Tão parcas e tão Parcas.
São só três
E os fios que cozem e torcem e rompem na nossa tez
Constituem todo o bordado
Que equaciona o aspirado
E faz enclausurado
Quando ruge no telhado
A maresia da imensidão.

De tantos horizontes
Quantos e tantos mais
Deixaremos nos estuprar aos montes
Na praia ou no cais
Buscando na paz
O que a guerra não trouxe?
Buscando no apraz
O que a terra não ouve?

Então para que destilar
Desse mar e desse horizonte
A aguardente do bar
Ou o baixar da fronte?

Categoria: Dor | Comentar (0) | 768 visualizações

Noite de garras armadas II

quarta-feira, 18. novembro 2009 9:19 | Autor:

Uma fera ruge
E seus dentes são estrelas
Na sua boca aberta!

Uma deusa cobre
Com seu manto as centelhas
De vidas humanas que em oferta

Estendem seus braços ao Olho de Hórus:

Lua!

Inspiradora da licantropia!
Homens-lobo arreganham os dentes
Ante seu olhar benevolente

E terno!

E no Inferno

Cantam demônios canções em teu nome
Enquanto a chama consome
Alma mortal

Sob sua orientação
E redenção!

Cair aos pés da noite
De garras armadas
E rugir raivosa e alegremente
À cada um dos seus dentes!

E sentes!

Não há outro caminho
Que não seja aquele:

Sozinho!

Sai do ninho, Pássaro-Demônio,
E vai!

A noite cai
E vai
Ao teu encontro
Enquanto derrama sua saliva

De fel!

E no céu

Anjos se escondem!

Asas ensanguentadas caem ao chão
Destroçadas!
Potestades evisceradas
Sucumbem sem razão!

Tamanha, santa e bendita podridão!

Anjos fecham os olhos
Ante o auge da natureza da criação:

A noite de garras armadas
A rasgar o próprio coração!


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Categoria: Noite | Comentar (0) | 991 visualizações

Dessa turba do continuar

quinta-feira, 5. novembro 2009 8:46 | Autor:

Dessa turba do continuar
Nada mais quero!
Vê! Só espero
Desespero me desabrigar.

Talvez lançado à fúria das plagas da incerteza
Veja a rígida sutileza de se construir anéis:

Lançar-se ao círculo
    E voltar
       E voltar
          E voltar
             E voltar
                E voltar…

Dessa turba do continuar
Nada mais espero!
Talvez esmero
O que não deva.

Mas veja a desgraça de lançar-se
    E voltar
       E voltar
          E voltar
             E voltar
                E voltar…

À essa turba do continuar,
Na qual nada mais gero,
Inútil me enterro
   À tentar
      E tentar
         E tentar
            E tentar
               E tentar

Extinguir meus erros
E dos meus desejos
Me libertar!

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O Jardim – parte i

sexta-feira, 9. outubro 2009 13:00 | Autor:

Das contas que fiz,
Dos mares que naveguei,
Chamo de novo,
Enfadonho,
Austero,
Súplice,
Mártir,
Esse espírito arredio
De feras ferinas
Nascido em meio ao torvelinho
De heras feridas

Que se espalhavam pelo jardim em meio ao marginal obscuro enquanto doces flores cresciam e sorriam ao nascer do sol!

Injustiça!
Que ervas venenosas tenham menos direito
Que flores formosas!

Injustiça!
Que orlas receosas tenham menos alento
Que amores sob árvores frondosas!

No entanto
Se o espinho que sulca a terra
Não conhece o escarro do verme
Não é espinho!
Não conhece o mistério do sol!
E o poder das trevas!

Por isso
Que as ervas venenosas cresçam
Na escuridão
Que é o seu lar
E que as flores do campo sucumbam
Na luz sem razão
Que é o seu fadar!


Parte II
Parte III
Parte IV

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Reflexos – parte i

segunda-feira, 5. outubro 2009 10:15 | Autor:

O caderno sempre será o meu espelho.
Eu me coloco de fronte à ele
E espero que me diga
Aquilo que quero ouvir.
É aqui que me desnudo,
Que me toco,
Que conheço a minha alma.
Não conheço nenhum meio melhor de se ver
Do que se colocar de fronte ao espelho
E encarnar a imagem.


Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V
Parte VI
Parte VII
Parte VIII
Parte IX
Parte X
Parte XI
Partes XII e XIII (final)

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Já me cai aos seus pés, ó musa cruenta

quarta-feira, 9. setembro 2009 10:45 | Autor:

Já me cai aos seus pés, ó musa cruenta,
Mas mesmo assim não cospe-me na razão!
Hás de viciar-me como se vicia a um cão
No servilismo infindável em busca de comida!

Lamberei eu eternamente os teus pés
E a emitir lamúrias passarei o meu tempo?
Ah! Este velho cão está largado ao relento
E sem dono há de adonar-se.

Adonar-se é um sonho!

Sonho que sonhado em profusão
Jaz em lassidão!
Em vicissitudes se sublima o cão
E de sublimar-se transforma-se num belo pano de chão.

O chão não é o limite para os Lúciferes.
Eles caem eternamente atravessando mundos
E vão para o vácuo eterno cultivar seus títeres.

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Metamorfoses de mim

quinta-feira, 20. agosto 2009 7:35 | Autor:

Metamorfoses de mim
Foram expostas aqui
Para o público se divertir.

Quadros em exposição,
Molduras em esmaecência
Perdem por entre a decadência

A razão de se ostentar imagens por sobre um jardim de esferas de cristal.

Não seria de todo mal
Se sequer um jasmim
Quisesse crescer por aqui,

Mas, sob esse céu esbranquiçado,
Tendente à aparência do gessificado,
Só flutuam esses quadros de pública admiração
E esses mundos de vítrea formação.

Relva verde se espalha
E mortalha por sobre nossos olhos
Falha quando seguramos um universo.

Roubá-los do ar,
Tantos que são,
Não exige o arquitetar
De nenhum plano vilão.

Basta estender a mão ao alto
E roubar da árvore onde frutifica tanto dióxido de carbono como oxigênio
Retirando de sua flutuação
Esse círculo 3D de formato homogêneo.

Contemplá-lo é como rir da sombra
Que viaja rumo ao nascente
Fugindo do avançar do sol para o poente.

Atirá-lo numa moldura
É ver escorrer seu transparente sangue
Dissolvendo aquela imagem da loucura.

E se prisma fosse
E o prisma não fosse
Vegetariano
Decomporia o espectro arco-iridiano

Nas luzes do sol.

Agora,
Luzes por luzes,
Fica por isso mesmo:

Seduzes
Lilases
Fugazes
E és esfera por fim.

Por isso, sento-me toda tarde no meu jardim
E fico à contemplar as metamorfoses de mim.


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Categoria: Considerações | Comentar (0) | 995 visualizações

Eu sei que vou tirar

sexta-feira, 21. março 2014 18:29 | Autor:

Hoje preocupado com o fato de que o Vinícius de Moraes não levou em consideração nos seus escritos a educação sexual, fiz essa versão educativa:

Eu sei que vou tirar
No coitus interruptus eu vou tirar
A qualquer remexida vou tirar
Desesperadamente
Eu sei que vou tirar

E cada gesto meu será pra te dizer
Que eu sei que vou tirar
A qualquer súbita mexida

Eu sei que vou gozar
É uma questão de tempo mas eu vou gozar
E cada curva tua há de levar
Ao que essa imprudência me causou

Eu sei que melhor era ter
Uma boa camisinha pra te comer
Sem aquela de tirar do interior teu
A qualquer súbita mexida

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60 dias comendo nabo

quarta-feira, 12. setembro 2012 19:31 | Autor:

Agora morando na metrópole me vejo ligado às raízes campestres e num rompante me veio esta corruptela:

Eu tava é muito gordo
traçando tudo de bocado
Não perdoava novena
dia santo ou feriado
Era só na bistequinha,
feijoada, cuscuz, muito virado

Comia mesmo pra valer!
Comia com muito prazer!
Sessenta dias limpando prato!

Mas veio deixando sequela
um belo infarto inesperado
Pedaço da minha vida
meu coração descompassado
Jamais será esquecida
a imagem do anjo de foice armado

Pra deus rogo e imploro
não me mata tão logo
Sessenta dias internado!

Agora só como mato
nada de pudim, nem bom-bocado
nem sequer uma bisteca
nem domingo, nem feriado
Jamais eu esquecerei
a imagem da morte de foice do lado

Só na cenoura cozida!
Só na chicória fervida!
Sessenta dias comendo nabo!

Só na cenoura cozida!
Só na chicória fervida!
Sessenta dias comendo nabo!

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Solidão

sexta-feira, 22. julho 2011 19:20 | Autor:

I-Cotidiano (a quota de um ano)

Eu sou um demônio cansado
E cansado sigo.
Queria ter um amigo
Mas só tenho o meu C.D.

Eu sou um humano comum
E comum me desligo.
Queria ter um abrigo
Mas só tenho o meu apê.

Eu sou um animal covarde
E covarde me obrigo.
Queria conversar contigo
Mas só conversa comigo a T.V.

Eu sou um homem calado
E calado te digo
Que este terno e esta gravata com os quais estou vestido
Fazem com que os outros não consigam me ver.

Eu sou um deus como qualquer um
E como qualquer egocêntrico consigo
Ficar sozinho sem o perigo
De ninguém me submeter.

Eu tenho dois controles remotos.
Eu tenho um amor remoto.
Eu tenho um remoto pensar
De que estou vivo em algum lugar

E em algum lugar te digo
Que te amo e queria estar com você
Mas alguém desligou a T.V.
O C.D.
E você!

Turn Off!

II-O estranho no apartamento

Eu tenho uma coleção de noites sem sonhos.
          Gostaria de ver?
Eu tenho uma galeria de dias repetitivos.
          Quer conhecer?

Eu tenho uma porção
De mundos virtuais
Na minha recordação!

A criança-e-suas-mitologias cresceu!
A criança-e-seus-livros-de-história cresceu!
          Já é um homem!
E hoje os vermes o consomem
Esperando retornar ao pó!

Você pode me ouvir?
Tem alguém aí?
Há alguém aí, fora dessas quatro paredes?
Ou acima deste teto?
Ou abaixo desse chão?

Sabe o que é, não queria te importunar,
Mas é que o concreto
Do meu coração
O colocaram mal.

E eu sinto umas coisas estranhas!
Li em livros que se chamam tristeza e solidão,

Mas ninguém as conhece
Pois nas suas entranhas
Dizem do sangue ser gelado!

Sabe o que é,
Eu não queria te importunar,
Mas queria que você descesse aqui
Pra gente se abraçar!
Só uma vez!
Só uma vez…

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{Po(v)e(r)t[r]y} Ariel Delizar

sexta-feira, 22. julho 2011 19:12 | Autor:

Um nome
   Que dorme
     Na ânsia
       E avança
         Para o tempo
           De ser possuído.

Quando vestido
   Será força
     No coração
       De uma moça,
         Uma mulher,
           Que hoje
             Sequer
               Nasceu.

Quando compreendido
   Será querido,
     Amado
       E temido
         Por quem não o compreendeu.

Ariel Delizar é o próprio amor.
Ariel Delizar é o próprio fervor

Na fúria,
   Na vingança
     E na luta.

Ariel Delizar
É a própria magia
Que irradia
O poder.

Ariel Delizar
É a própria alegria
Que evidencia
O compreender.

Ariel Delizar é sombria:
Senhora das Trevas
E Dama dos Sonhos
Que rindo descreve e enreda
O nosso coração nos seus caminhos errôneos!

Ariel Delizar é um dia!
É fera arredia
Em forma de flor!

É o silencioso clamor:
“Ariel Delizar. Ariel Delizar. Ariel Delizar.”

Esse nome
   Que dorme
     Pertence
       Ao futuro,
         Que escuro
           Resguarda

O claro nascer
De raro prazer

De uma criança
Que é minha esperança,

É minha alegria…
…É minha filha:

Ariel Delizar
Que não deixará coração algum
Sem se apaixonar…

“Ariel Delizar”!

~0~

No futuro
Há um ponto
Que insiste em não se apagar

E em meio ao obscuro
Me deixa tonto
Com o seu brilhar.

Meu ébrio coração
Fica cego de emoção
E contempla a imensidão
De uma ânsia com explicação:

Um nome e um sonho.

Sonhei a vida contemplando essa fome
E passei o sonho vivificando esse…

…Nome!

Essa que dorme
No porvir!

Há de vir:
Um dia, uma noite e um sonho!

~0~

Hoje eu te chamei.
Não foi em vão.
Pois eis que contemplei
A explicação!

Me veio em forma de palavras
Que bravas
Enfrentaram calmamente tormentas
Que alimentas
Sem razão!

~0~

A página branca diante de mim
E as palavras já escritas atrás dela
Que insatisfeitas ficaram para trás.

A inspiração à beira do fim
E uma idéia que impera:
Circunstâncias conflitantes roubando a paz.

Há algo…

Porém esse algo desenha uma fome irredutível
Que ao externo imperceptível
Vivifica a aspiração vivaz.

Sonhos delirantes!
Diamantes
Que berrantes
Na sua rósea coloração
Fazem prósea dissertação.

Caoneosfera irricidente.

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O Açoite

quarta-feira, 29. junho 2011 11:18 | Autor:

Por que me açoita açoite?
Por que me açoita açoite?

Açoite! Açoite! Açoite!

Por que me açoita?

Açoita!
   Açoita!
     Açoita!

Açoite!
   Açoite!
     Açoite?!

Por que me açoita açoite!?

Açoite!
   Açoite!
     Açoite!

Por que me aceita açoite?

Aceita!
   Aceita!
     Aceita!

Por que açoite aceita?

Por quê!?
   Por quê!?
     Por quê!?

Aceita?!
   Aceita!
     Aceita!

Por que aceita o açoite?

Me aceita!
   Minha seita!
     Me aceita!

Açoite?!
Eu te aceito!!!

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O Trem a Vapor

sexta-feira, 27. maio 2011 20:50 | Autor:

*Singela paródia da música “A Banda” de Chico Buarque

Tava com nhaca da vida
E o meu amor me chamou
Pra gente ir se matar
No trilho do trem a vapor

Da minha vida sofrida
Despedi-me com ardor
Me deixando esmagar
Pela locomotiva a vapor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a carniçada voar
Do trilho do trem a vapor

Tava com nhaca da vida
E o meu amor me chamou
Pra gente ir se matar
No trilho do trem a vapor

Da minha vida sofrida
Despedi-me com ardor
Me deixando esmagar
Pela locomotiva a vapor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que merda toda era aquela

A viscerada se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Com as entranhas espalhadas pelo trem a vapor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Limparam todo lugar
Depois que o trem passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Só ficou meu sangue a pintar
O trilho do trem a vapor
Só ficou meu sangue a pintar
O trilho do trem a vapor…

Categoria: AnarcoPoeticSongs: PoeticLongWayDisturb | Comentar (0) | 1.294 visualizações

A Primavera

segunda-feira, 9. maio 2011 10:47 | Autor:

“A Primavera
   Certeira
     Vem
       Ligeira
         À mente
          Que sente
            Seu clangor.
               A primeira
                 Cegueira
                   Vem
                     Altaneira
                       Mostrando
                         Certeira
                           Viagens,
                             Sonhos
                               E flor!”

Joga para o passado
O teu passado
Que com certeza
Do passado não sairás!

E passa do tempo
Em que os dias tão quentes
Eram carentes
De outras formas mais comuns!

Agora a sombra tão fulgídia
É necessidade de vida
Que se arremesa contra o interlocutor.

Mas vai como louca
Porque grita e não fala!
Porque chora e não cala
A criança que há no seu interior!

É apenas uma armadura.
É apenas uma armadilha.

Pois cingidos de reforços foram os corações,
Mas todos eles caem em turbilhões
De súplicas!

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