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Gentil dama que me escreve

quarta-feira, 15. dezembro 2010 10:11

Gentil dama que me escreve,
Veja só o que está fazendo:
Desperdiçando lábia a quem se atreve
Cuspir versos ao bravio vento.

Nem de um só instante
Ficou longe de ti meu pensamento,
Mas a insistência me é irritante
E a repetição mero tormento.

Por isso não se entregue
A esperança desse tíbio momento.
O momento (isso é certo) fenece
E vai lhe desamparar qualquer contentamento.

Faça uma prece! Ore! Cante!
Mas a ouvidos outros envie seu sibilo!
Minha alma dorme, não se espante,
No mais profundo sigilo.

Por isso palavras não me sangram,
Nem me sangram seus berilos,
Verdes olhos que não amam,
Só a tortura lhes serve de colírio.

Entrego-lhe somente esta mão
Onde o estigma se figura:
Pregos, tachas, tição,
Já lhe atravessaram a carne dura.

Crucifixo que sou abro os braços
Abarcando toda a estrutura
Desse tórrido planeta de embaraços
Abençôo a toda criatura

Que se ergue aos meus olhos e ri!
Ri como ri o corcunda da basílica!
Enfeiado de si mesmo e balindo o vi
Badalando sinos! Entoando mímicas!

Mas, quanto a ti, cessa!
Cessa toda e qualquer palavra!
A palavra me irrita, não se meça
Naquela que é a mais infértil lavra.

Dê a minha alma algo
Que lhe brote do próprio ventre!
Dê-me do seu âmago o fogo!
Só assim há de me ver contente.

Dê-me um único motivo
Que não possa ser dito!
Um único peso novo
Que não possa ser erguido!

Dê-me da sua carne o portento!
Dê-me do seu útero o sono.
Da lembrança o esquecimento.
Do seu colo o abandono.

Dê-me algo novo:
Novo como eram novas todas as coisas no frontispício da criação.
Novo como eram novas todas as noivas do paradisíaco Adão.

Dê-me algo que não tenha nome!
Nem signo!
Nem forma!
Nem imagem!

Nem dono!
Nem norma!
Nem margem!

Limite, estatura, métrica, aparência,
Embuste, candura, réplica, decência!

Dê-me você!
Mas a você que se perde de si mesma!
Dê-me você!
Mas a você que deconhece e se pasma!

Dê-me… ah…! Dê-me!

Ah…! Gentil dama que me escreve
Tardiamente capturei o teu intento!
Perdi levado pelo desejo que me impele
A tentar nomear o derradeiro portento!

Gentil dama que me escreve
Veja só o que está fazendo…
Fomentando em mim a palavra que deve
Fenecer já! Agora! Neste momento!

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Invocação

sexta-feira, 18. setembro 2009 12:09

Chamo das trevas
Um nome perdido no tempo.
Uma criança que dorme ao relento
De um sentimento que só traz pesar.

Chamo da noite,
Um admirador deprimido,
Cujo ar noturno faz perdido
O seu louco coração!

Chamo do tempo
Um ideal esquecido!
Um sonho aflito!
Um louco sonhar!

Que venha até mim agora,
Ó morador e entidade da alma!
Sentí aqui o tempo onde a calma
Há muito se perdeu!

Vinde à mim força do tempo!
Invoco um poder esquecido,
Nas chamas perdido
Do coração teu!

Um coração levado pelo vento…
Um nome de pronunciar lento…
Um vagar irreprimível e louco…
Um adormecer que, de sanidade, tem pouco…

Sonho da Noite,
Volta ao lar!
Pois na tua ausência esse açoite
(A frieza) vem me castigar!

Busca teu lar,
Ó Sonhador!
Faz calar essa insanidade
Que não tem um mínimo de calor!

Caminhaste,
Ó judeu errante?!
E o que encontraste?
Com certeza nenhum lugar para se descansar!

Nasceste,
Cresceste,
Sonhaste,
Voaste,
Caíste,
Choraste
Perdendo o nascer do sol!

E o que ganhaste?
O orgulho de ser um sofredor sem par!
Que amaste?
Tua sombra?! Louco de solitário pesar!

Busca teu lar,
Ó criador!
De contraditas convulsões!
De palpáveis alucinações!

Busca teu lar,
Ó cantor!
Ficaste chorando tanto!
É hora de parar e cantar teu pranto!

Olha para a Luz do Sol!
Deixa ela te transpassar!

Te tirar as sombras da alma.
Secar as lágrimas da tua face.
Te devolver a aparente calma
Daquele que para cantar nasce!

Ergue tua voz!
Encanta o louco e o algoz!
Os pássaros à muito esperam por ti!

Hora de acordar.
Hora de mudar.
Hora de deixar para trás
Essa alma em escombros
Que lentamente se desfaz…

…Essa alma de assombros
Que em dor se contrai.

Lembra quando nasceste?
Foste gestado no útero da mente.
Forjado na resignação decadente
Da observação da multidão esmaecente.

Moldado na filosofia do ser ou não apodrescer.
Do crer ou deixar de ter.
Da loucura dual e confusa do viver.

Tu criança leste os versos
Da decência e da indecência
E em qualquer um desses dois universos
Viveste e viste que não existe a mínima coerência.

Choraste e correste!
Te resignaste e escondeste!
Presenciaste…
…Mas fingiste que não viste!

Hoje, eu chamo teu nome das trevas…
Roubei a tua admiração da noite…
Escondi o teu ideal de um dia…
Te tirei o belo falar…

Que fará?

Vai seguir comigo o caminho da noite
Ou ficará a chorar aí na escuridão?

Sem nome.
Sem olhos.
Sem ideal.
Sem palavras para descrever a tua própria solidão?
Sem falsos sorrisos para aliviar tua frustração?

Ah! Erga-se criança-sonho!
Tu és necessária à sua maneira
Só que em outro lugar!

Sai do relento!
Deixa o tempo ao tempo!
Vêm o mundo desfrutar!

Categoria: Versos Íntimos | Comentar (0) | Autor: | 757 visualizações

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