Gentil dama que me escreve

Gentil dama que me escreve,
Veja só o que está fazendo:
Desperdiçando lábia a quem se atreve
Cuspir versos ao bravio vento.

Nem de um só instante
Ficou longe de ti meu pensamento,
Mas a insistência me é irritante
E a repetição mero tormento.

Por isso não se entregue
A esperança desse tíbio momento.
O momento (isso é certo) fenece
E vai lhe desamparar qualquer contentamento.

Faça uma prece! Ore! Cante!
Mas a ouvidos outros envie seu sibilo!
Minha alma dorme, não se espante,
No mais profundo sigilo.

Por isso palavras não me sangram,
Nem me sangram seus berilos,
Verdes olhos que não amam,
Só a tortura lhes serve de colírio.

Entrego-lhe somente esta mão
Onde o estigma se figura:
Pregos, tachas, tição,
Já lhe atravessaram a carne dura.

Crucifixo que sou abro os braços
Abarcando toda a estrutura
Desse tórrido planeta de embaraços
Abençôo a toda criatura

Que se ergue aos meus olhos e ri!
Ri como ri o corcunda da basílica!
Enfeiado de si mesmo e balindo o vi
Badalando sinos! Entoando mímicas!

Mas, quanto a ti, cessa!
Cessa toda e qualquer palavra!
A palavra me irrita, não se meça
Naquela que é a mais infértil lavra.

Dê a minha alma algo
Que lhe brote do próprio ventre!
Dê-me do seu âmago o fogo!
Só assim há de me ver contente.

Dê-me um único motivo
Que não possa ser dito!
Um único peso novo
Que não possa ser erguido!

Dê-me da sua carne o portento!
Dê-me do seu útero o sono.
Da lembrança o esquecimento.
Do seu colo o abandono.

Dê-me algo novo:
Novo como eram novas todas as coisas no frontispício da criação.
Novo como eram novas todas as noivas do paradisíaco Adão.

Dê-me algo que não tenha nome!
Nem signo!
Nem forma!
Nem imagem!

Nem dono!
Nem norma!
Nem margem!

Limite, estatura, métrica, aparência,
Embuste, candura, réplica, decência!

Dê-me você!
Mas a você que se perde de si mesma!
Dê-me você!
Mas a você que deconhece e se pasma!

Dê-me… ah…! Dê-me!

Ah…! Gentil dama que me escreve
Tardiamente capturei o teu intento!
Perdi levado pelo desejo que me impele
A tentar nomear o derradeiro portento!

Gentil dama que me escreve
Veja só o que está fazendo…
Fomentando em mim a palavra que deve
Fenecer já! Agora! Neste momento!

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Autor: | 772 visualizações
Data: quarta-feira, 15. dezembro 2010 10:11
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